Guns N' Roses - Passeio Marítimo de Algés - 2 Junho 2017

Guns N’ Roses fazem as pazes com o passado

Duelos de guitarra de grande dimensão e profundidade, um Axl disposto a animar as hostes e a ser pertinente nas suas intervenções (por vezes com bastante piada), uma banda coesa, feliz com o seu “all rock show” e uns visuais de fazerem inveja a uns Chemical Brothers. Foi isso que experienciamos em Algés, num fim de dia ventoso, um autêntico sonho em que praticamente tudo correu sobre rodas.

Ainda assim, bem que os Guns N’ Roses podiam esquecer o álbum maldito “Chinese Democracy” e tocar integralmente “Appetite for Destruction” e “Use Your Illusion I e II”. Bom, talvez não aconteça durante esta vida, como indicia o nome da digressão (“Not in this Lifetime Tour”).

A banda de Los Angeles, Califórnia - onde, por estes dias o ex-governador Arnold ‘hasta la vista, baby’ Schwarzenegger procura combater a política anti-verde de Donald Trump; Arnie, o mesmo de “Exterminador Implacável”, nomeadamente o segundo capítulo da saga, para a qual os GnR criaram “You Could Be Mine” - sarou as feridas para uma digressão que os fãs julgavam impossível com boa parte da composição original - Axl Rose (voz, piano), Slash (guitarra), Duff McKagan (baixo), Dizzy Reed (teclados), Richard Fortus (guitarra), Frank Ferrer (bateria) e Melissa Reese (teclados).

“It's So Easy”, a abertura aguardada, com 15 minutos de atraso, sem prejuízo dos presentes, e com um som pelo menos duas vezes mais alto e melhor definido do que nos concertos anteriores. Hora mágica, muitos facebook live para registar o regresso dos GnR a Portugal. Axl já em forma, sóbrio, depois da cadeira na qual atuou com os AC/DC em maio de 2016. Duff, por seu lado, a exibir com orgulho o símbolo de Prince no seu baixo e a t-shirt de homenagem ao Lemmy. E seguimos para “Mr. Brownstone”.

Um simples “Boa noite” de Axl apresenta “Chinese Democracy”, tema que permite que Slash, com as cores de Portugal na guitarra (verde) e t-shirt (vermelha), possa brilhar na transição fabulosa para “Welcome to the Jungle”. Axl arrepia pela primeira vez o público.

Em “Double Talkin' Jive” Slash volta a brilhar e a improvisar ao ponto de deixar a equipa de realização do ecrã de palco com uma bonita imagem de rosas vermelhas em pausa.

“Better” parece comunicar diretamente com NIN e Marilyn Manson, também em termos de visuais. A banda soa bem, o som está profissional e oleado, com menos pregos do que no passado. “Only in it for the money?” Como diria Zappa. Naturalmente. Mas também uma banda com vontade de deixar um legado às novas gerações e emendar os erros do passado - muitas destas músicas são verdadeiros hinos transferidos de pais para filhos que merecem esta interpretação e qualidade de produção.

“Estranged”, com bonitas medusas no vídeo, dá início à fase “Use Your Illusion”, um dos melhores duplos álbuns da história do rock n’ roll. Paul McCartney e os seus Wings aprovariam esta versão acelerada de “Live and Let Die”. Aliás, a banda de LA sempre foi prolífica em adaptações de terceiros - com verdadeiros melhoramentos ao vivo, as músicas parecem originais dos GnR. E para os mais distraídos serão.

Fortus e Slash comunicam de forma imparável, rivalizando mesmo Axl no poderoso “Rocket Queen”. Como diriam Steve Vai ou Joe Satriani, as guitarras também têm sentimentos.

“Como estão? Está uma bela noite, não vos parece?” afirma Axl antes do clássico “You Could Be Mine”, um dos vídeos de maior rotação na MTV do início dos anos 90. Rock rasgado, pujante, a dar tudo. O vídeo aponta para um “Exterminador” futurista, como se James Cameron nos tivesse ligado para colocarmos uns óculos 3D.

Duff introduz a solo e na voz “New Rose”, um dos temas mais reconhecíveis dos fundadores do punk, The Damned. Mais uma bela versão (e um vídeo simples inspirado no universo Marvel). Axl regressa para com o seu melhor falseto presentear a audiência com a balada “This I Love” (olá Meatloaf, olá Scorpions).

Numa América cada vez mais dividida na era Trump, um tema como “Civil War” faz todo o sentido, colocando o dedo na ferida aberta e como convite à reflexão (mesmo que seja interna). “Voodoo Child", de Jimi Hendrix, no final, é uma justa homenagem ao melhor guitarrista de sempre. Slash em alta, uma vez mais.

Reconhecível aos primeiros acordes através do piano da série “Westworld”, “Black Hole Sun”, dos Soundgarden, surge aqui bastante colada à negritude do original e apenas um bocado mais pesada, em homenagem ao recentemente desaparecido Chris Cornell.

“Coma”, da qual os próprios GnR saíram, felizmente, para nos presentearem um poderoso rock, pontuado a espaços por azeite, como praticamente todo o rock mais mainstream, mas ainda assim escorreito, dinâmico, bem interpretado, 100% compreensível, no limite dos decibéis, rasgado, com muita descendência. E aqui estão eles a reclamar um lugar no Olimpo do rock, ao lado dos grandes que homenageiam esta noite e de outros tantos.

A banda é devidamente apresentada com destaque para um ‘carregado’ (da parte de Axl) “Slash”, como se estivesse de alguma forma a pedir desculpas pelo passado. E Slash, depois de solar e rockar, oferece, generosamente, uma incrível versão “Speak Softly Love”, banda sonora de “O Padrinho”. Certamente que Francis Ford Coppola aprovaria o brilharete numa ponte perfeita para os acordes mais reconhecíveis dos GnR a soarem tão bem ou mesmo melhor do que a primeira vez que os ouvimos em disco. Falamos obviamente de “Sweet Child O' Mine”, cantada em uníssono. Axl aproveita para mudar de indumentária e de cores, trajando agora branco e um chapéu amarelo - e ficamo-nos por aqui que isto não é um blogue de moda. Siga a música com “Out Ta Get Me”.

Fortus e Slash estão de volta aos duelos com “Wish You Were Here”, versão cantada pelo público que reconhece bem os Pink Floyd e sabe que nunca mais os verá ao vivo. A nostalgia também passa por aqui. Até Axl interromper os guitarristas: “estes dois ficavam aqui a brincar até morrer”, ironiza.

“November Rain” e “Knockin' on Heaven's Door” têm versões bastante dinâmicas, a primeira ainda com mais piano, mais solos, a segunda quase dub, de sentir o cheirinho a ganza a curta distância. E claro, mais duelos de guitarra e um Axl a aproximar-se do público feminino: “têm uns 15 ou 16 anos, não?”. Bob Dylan voltaria a ganhar um Nobel (ou talvez não fosse caso para tanto). Siga para o final à AC/DC com “Nightrain”. E acabou assim? Não. Pouco depois o regresso para o encore, num total de praticamente três horas de espectáculo.

“Patience”, versão acústica, de arranjo simples, bem tocada e com um assobiar certinho de Axl; “Whole Lotta Rosie”, dos AC/DC, novamente a rockar como gente grande - um tema “obrigatório”, segundo o vocalista, desde as primeiras vezes na Europa; “Paradise City”, outro êxito global, a ser tocado ‘comme il faut’, pirotecnia e confettis e guitarras no expoente máximo. Deram praticamente tudo e a mais não eram obrigados.

“You Know My Name”, tema que Chris Cornell escreveu para “007 - Casino Royale”, segunda parte de uma sentida homenagem acompanha a saída do público, após a despedida da banda, com a tradicional distribuição de palhetas, perante a natural ovação do público absolutamente saciado com o que testemunhara.

Minutos antes dos GnR entrarem em palco, o mesmo tinha sido ocupado por Mark Lanegan. O ex-Screaming Trees promove por estes dias “Gargoyle”, o seu décimo álbum de originais. O som não terá ajudado à perceção das músicas e muitos aproveitaram para comer, beber, tirar selfies ou fazer diretos com sósias do Slash e do Axl, estando-se nas tintas para o senhor Lanegan. Serviços mínimos, sem fazer sequer uma comunicação com o público e limitando-se a cumprir calendário. Esperávamos mais.

No início da noite marcaram presença os texanos Tyler Bryant & the Shakedown.

Apesar de ser um ‘fedelho’ de 26 anos, Tyler Dow Bryant tem uma impressionante carreira, tendo sido artista suporte de Jeff Beck, Aerosmith, Lynyrd Skynyrd, B.B. King ou AC/DC. “Wild Child” (2013) e “The Wayside” (2015) são os discos que editaram até ao momento, mas palpita-nos que devem estar a forjar um novo registo a editar ainda este ano. Merecem ser mais conhecidos e terem mais oportunidades de mostrar o seu rock inspirado. Boa escolha dos GnR.

 

Alinhamento

- It's So Easy

- Mr. Brownstone

- Chinese Democracy

- Welcome to the Jungle

- Double Talkin' Jive

- Better

- Estranged

- Live and Let Die, dos Wings

- Rocket Queen

- You Could Be Mine

- New Rose, dos The Damned

- This I Love

- Civil War

- Black Hole Sun, dos Soundgarden

- Coma

- Solo de guitarra de Slash

- Speak Softly Love, da BSO de “O Padrinho”

- Sweet Child O' Mine

- Out Ta Get Me

- Wish You Were Here, dos Pink Floyd

- November Rain

- Knockin' on Heaven's Door, de Bob Dylan

- Nightrain

Encore:

- Patience

- Whole Lotta Rosie, dos AC/DC

- Paradise City

 

Texto: Filipe Pedro

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