NOS Primavera Sound 2017 - 9 Junho 2017

Duelo de titãs: Nicolas Jaar vs King Gizzard & The Lizard Wizard: Primavera garante novidade no rock e na eletro
 
A escolha do final da noite de sexta-feira não se adivinhava fácil. No palco ponto, King Gizzard & The Lizard Wizard, depois de verificarem que estava tudo bem com os instrumentos e ligações, arrancam o seu peculiar cocktail de rock psicadélico devedor do melhor que se praticava no final dos anos 60 e durante os 70. Prolíficos, os australianos editaram uma dúzia de álbuns desde 2010 - e praticamente todos relevantes e exploratórios qb. É isso que tentam transferir para a audiência, com maior ou menor eficácia. Honestamente, já os vimos mais ‘celebrativos’ e com uma química e comunicação superiores. Ao sexto tema resolvemos (re)visitar Nicolas Jaar no palco principal do recinto. O som estava extraordinariamente no ponto (algo raro no palco Nos) e o cenário, centrado e com uma iluminação minimal, assentava que nem uma luva na estética do músico de 27 anos. Aphex Twin, que encerra o festival, é uma das referências, mas há outras mais ou menos óbvias como Chris Cunningham (conhecido pelas curtas musicais mas também apreciável DJ e VJ nas horas vagas), FSOL, LFO ou Ken Ishii. 
 
O chileno-norte-americano marcou presença no palco Pitchfork há uns anos com o projeto paralelo Darkside, mas desde que se dedicou à criação de bandas sonoras - caso do genial “Dheepan” - e dos álbuns “Pomegranates” (2015) e “Sirens” (2016) que atingiu um respeito ímpar no universo do eletrónica de vanguarda, o que explica o convite para o pós-horário nobre do Primavera, que o músico sabiamente aproveitou, destacando-se como um dos principais momentos altos da presente edição. Richie Hawtin, na linha mais dura, e Mano Le Tough, mais contemplativo, prosseguiram a celebração madrugada fora.
 
Horas antes, as baladas indie de Bon Iver habitavam o palco principal. Justin Vernon foi um razoável gestor de expetativas, encaixando alguns ‘clássicos’ no meio do mais recente “22, A Million”, perante o olhar deliciado de casais que se acariciavam enquanto pensavam nos bebés que fariam mais tarde (até os LGBT, obviamente). Nos antípodas de tudo isso estavam, à mesma hora, mas uns metros acima, no palco ponto, para nosso júbilo, os Swans. Michael Gira em grande forma e com “The Glowing Man”, editado no ano passado, na bagagem. Pelo meio, no Pitchfork, a corajosa Julien Baker, aos 21 anos, mostrava o disco de estreia editado pela Matador, “Sprained Ankle” (2015).
 
Mais uma escolha, mais uma voltinha. Skepta no palco Super Bock ou Hamilton Lethauser no Pitchfork. Preterimos o primeiro face ao inspirado vocalista dos Walkmen (presença regular no Primavera Barcelona). A monotonia e a espera entre músicas invade-nos ao ponto de ‘picarmos’ o grime fulminante e crítico do britânico. Gostámos do que vimos.
 
Horas antes, Sleaford Mods a todo o vapor. Um PC, um tipo que curte um molho, uma voz de outro planeta a dar tudo. Letras fabulosas debitadas a mil com múltiplos sons de ‘peidos’. A qualquer momento, esta mistura de Ian Brown com um mau da fita do “Snatch” parece que vai ou explodir ou ter um AVC. A forma de cantar e a forma de segurar o microfone é, no mínimo, bastante original, algures entre o hip hop e o radialista da BBC que descreve, em speeds, uma corrida de cavalos. Uma pequena multidão - naquela que terá sido a melhor audiência do palco ponto (arranjem um nome em 2018, por favor) - delirou, saltou e aplaudiu efusivamente este(s) senhor(es). O novo disco, com muitos clássicos à mistura, foi o principal prato servido, de bandeja, mas com muitos “Inglaterra = merda”, na semana em que Theresa May ganha, mas sem maioria absoluta. Uma incrível capacidade/criatividade de surpreender e de avacalhar naquele que foi um dos momentos do festival - “Porto 1 - 0, que se foda Inglaterra e o Reino Unido. Estão mortos”. Isto depois de considerar que os Teenage Fanclub são uma viagem ao passado onde deviam ter ficado (“há uma merdice a acontecer ali atrás, e é ali, no passado, que merecem estar”). Absolutamente genial (e verdadeiro, como confirmámos na viagem para o palco Pitchfork, onde se deu o embate com o country alternativo de Nikki Lane. A lua cheia, os coiotes, o Texas ao fundo. Que viagem…).
 
Angel Olsen, uma das vozes indie mais reconhecíveis da nova geração, nomeadamente graças à força (e à alta rotação) de “Shut Up Kiss Me”, a par da australiana Courtney Barnett, pautou-se por um belo concerto de fim de tarde. Claro que as influências estão lá - Patti Smith, PJ Harvey, Cat Power, Ani DiFranco -, mas Angel não tem vergonha de as assimilar numa mescla no mínimo curiosa. O terceiro álbum “My Woman” tem uma produção bastante superior aos anteriores e ao vivo os seus ‘ventureiros’ de escola jazz demonstram o seu talento e criatividade. Talvez um bocadinho ‘by the book’, mas fosse este o padrão.
 
Que crescidos, os Whitney. Com um concerto em Bolonha, na véspera, a banda praticamente só descansou no terminal do aeroporto. O baterista/vocalista, sempre com muita piada nos intervalos lúdicos (“não passem por separações, aliás nem amem ninguém… mentirinha, amem sim”), deita-se no chão, recebe um beijo apaixonado de um colega de palco e apresenta belas melodias pop, escorreitas. Elogia os colegas, o Porto…mas diz preferir Lisboa (perante alguns assobios) e oferece uma indie pop cantarolável escrita na capital, onde terá vivido uma semana em novembro passado. Infelizmente o som da palco ponto começa a perturbar ligeiramente a perceção do espetáculo dos Whitney. Por lá estão, à mesma hora, os icónicos Royal Trux. O casal ‘hedonista’ por excelência dos anos 80 e 90, altura em que a heroína era rainha, acusa o natural desgaste dos abusos do passado. Apesar de algumas músicas serem reconhecíveis dos tempos da Matador Records, os quatro ‘Trux’ distraíram-se em frequentes derivações com maior ou menor inspiração. A viagem ao passado far-se-ia melhor, provavelmente, com alucinógenos.
 
O rock espacial sem magia especial de Jeremy Jay não convenceu a maioria dos presentes, mas a coisa piorou quando o novo tema apresentou resquícios de um dub rock praticado pelos Clash… será mesmo este o futuro? A mudança de palco tornava-se obrigatória de modo a escutar o disco mais recente dos Pond, também eles coqueluches do Primavera. 
 
Apesar de pouco comunicativos, os australianos souberam gerir bem os minutos disponíveis na apresentação dos novos temas, alguns, poderíamos considerar lados b dos ‘manos’ Tame Impala. Pena a qualidade do som não ter permitido uma melhor experiência em termos de audiofilia.
 
São momentos como este - First Breath After Coma a convidarem David Santos/Noiserv para a “Umbrae” - que nos relembram a importância de um festival como o Primavera Sound na descoberta de novos talentos e ao colocar a música acima do branding, algo cada vez mais raro. Apesar de tímidos (na conversa), os “miúdos” de Leiria estão cada vez melhores. Cultos, com excelentes referências culturais, transferem essas referências que lêem, vêem e ouvem para os seus temas com cada vez mais camadas. E ainda convidam o público à descoberta dos seus excelentes vídeos - uma banda com uma sonoridade tão cinematográfica só podia ter pequenos filmes incríveis e premiados nos festivais de cinema da especialidade. Pena o Nos Primavera Sound ter aderido à infeliz moda dos ecrãs ao alto (mea culpa das redes sociais) que desvirtua a perceção real com enquadramentos totalmente sem sentido.
 
Texto: Filipe Pedro
 

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