NOS Primavera Sound 2017 - 10 Junho 2017 (em actualização)

Portugal recebeu os parabéns da diva Elza Soares e atuações absolutamente inesquecíveis de Aphex Twin, The Make-Up e The Black Angels. Dificilmente o Nos Primavera Sound poderia ter encerrado de melhor forma a sexta edição.

O herói máximo do dia tem por nome Ian Svenonius. O mentor e vocalista dos Make-Up foi interventivo, filosofou e apresentou temas dos para muitos clássicos “Sound Verite” (1997), “In Mass Mind” (1998) e “Save Yourself” (1999). Nós que tivemos a sorte de os ver e entrevistar no pequeno e histórico L’Ubu, em Rennes, em dezembro de 1997, sabíamos bem ao que íamos e, passados estes anos todos, não nos sentimos minimamente defraudados, bem pelo contrário. Um feroz animal de palco que habitou constantemente as primeiras filas, equilibrando-se em cima do público, com o apoio de seguranças e de alguns fãs mais acérrimos, com o seu estilo peculiar de literalmente engolir o microfone enquanto canta o maravilhoso selvagem gospel apocalíptico. O som esteve no ponto e, qual Vinho do Porto, foi curioso confirmar a vitalidade de canções com praticamente vinte anos. Gostávamos muito de os voltar a ver novamente em nome próprio, obrigado Nos Primavera Sound por mais um precioso episódio da ‘máquina do tempo’ (falta agora convidar Bobby Conn, Trans Am ou Les Georges Leningrad, por exemplo).

Mais tarde, no mesmo palco, os Black Angels tocaram quase integralmente o recém-editado “Death Song”, de longe o seu melhor trabalho, uma autêntica viagem aos anos 70 e ao psicadelismo rock. Diversificado, com alma, ótimas letras e uma invejável produção. Infelizmente os texanos receberam um horário relativamente ingrato: o de competir com o genial Richard D. James, Aphex Twin.

E o músico britânico autor de discos essenciais como “Richard D. James Album” (1996), “Drukqs” (2001) ou “Syro” (2014), e de inúmeras remisturas ‘for cash’, não esteve para brincadeiras. Quinze anos volvidos da fase da obscuridade onde o viramos no Número Festival ou no Primavera Sound de Barcelona quase na penumbra, Aphex apresenta-se agora com 15 ecrãs em palco (contando com os painéis laterais) mas aponta a câmara para as filas da frente, acrescenta efeitos e distorce a realidade (será um ‘efeito’ aplicável em tempo real desenvolvido pelo amigo realizador dos icónicos “Come to Daddy”, "Windowlicker" e “Rubber Johnny”, Chris Cunningham?) em ‘batidas’ visuais que acompanham os elevados bpm do seu live act/deejaying. Musicalmente irrepreensível e, até, frequentemente inovador, o ‘tio’ Aphex soube cativar e surpreender a audiência com as sonoridades mais arrojadas e experimentais de todo o festival (nem Nicolas Jaar conseguiu aproximar-se).

Depois destes três colossais concertos, arrastámo-nos, literalmente, até ao palco Pitchfork para testemunhar os ‘punkers’ Against Me na apresentação do mais recente “Shape Shift With Me” (2016). Após uma pausa para um fantástico crepe de banana, amendoim e chocolate, regressamos ao Pitchfork (o único palco que se ‘estica’ madrugada fora) para testemunhar a atuação inspirada de Tycho - heterónimo do músico Scott Hansen que apresentou também um disco do ano passado, o curioso “Epoch” -, a apresentação ‘techno-house’ da dupla de Belfast, Bicep (Andy Ferguson e Matt McBriar) e o dj set de Marc Piñol (aka DJ de Mierda - sinceramente não é assim tão mau, mas também não foi propriamente diferenciador). A afterparty oficial prometia mais do que cumpriu, e a falta do estóico Nuno Lopes foi sentida.

Horas antes, no palco Super Bock, o Sampha promovia o disco de estreia “Process”, editado no início do ano. Infelizmente o som sofrível impediu a real perceção da qualidade vocal do músico londrino e optámos por ‘debandar’ até ao palco ponto, uns metros acima, onde atuavam os norte-americanos Shellac.

A banda de Steve Albini (guitarras e voz), Bob Weston (baixo, guitarra e voz) e Todd Trainer (bateria), campeã de participações no Primavera Sound (Barcelona e Porto, presença constante desde o concerto fabuloso no Auditori Forum, em 2006; depois disso voltaram sistematicamente ao palco ATP, agora palco ponto, em Portugal). Certamente que regressam em 2018 para a apresentação comemorativa dos vinte anos do icónico “Terraform”. Depois de tantas atuações, os Shellac ainda conseguem surpreender, o som esteve particularmente bom este ano e a hora mágica (por-do-Sol) pode muito bem ter sido escolhida pela própria banda, que parece adorar o palco e o cenário. Voltem, serão sempre bem recebidos.

Mitski, no palco Pitchfork, também ela em modo ‘power trio’, deu continuidade ao indie rock dos Shellac, com uma bela voz e presença - certamente que ouviremos falar mais da artista norte-americana de ascendência nipónica. De Sacramento ‘aterrou’ no Parque da Cidade o hip hop industrial experimental dos Death Grips - MC Ride (voz), Zach Hill (bateria, programação) e Andy Morin (teclas e baixo) -, onde apresentaram o recente “Bottomless Pit” (2016). Num registo bem diferente, a colaboradora de Ariel Pink, e também californiana Weyes Blood, nascida Natalie Mering, causou sensação pelo intimismo que conseguiu no palco Pitchfork.

Sensivelmente à mesma hora, os ingleses Metronomy habitavam o palco principal com as belas melodias dos álbuns “The English Riviera” (2011) e “Love Letters” (2014); infelizmente o mais recente “Summer 08” (2016) não apresenta a mesma qualidade de composição que os anteriores, apresentados em Portugal na devida altura. A revisão da matéria dada teve os seus momentos geniais, casos de “I’m Aquarius” ou “The Bay”.

Editado em janeiro de 2017, “Near to the Wild Heart of Life” revela uns Japandroids mais adultos. Os canadianos são agora menos noise e mais rock, a caminho de transformarem numa banda de estádio. Pelo caminho ficou alguma magia e algumas canções quase pop noise, como “The House That Heaven Built".

“Que massa!”, afirma Elza Soares, na primeira pausa do concerto, olhando para o cenário e para os milhares que tem em frente. Boa parte deles terão ouvido o divinal “A Mulher do Fim do Mundo” (2015), outros terão visto os vídeos e concertos anteriores (no Coliseu de Lisboa, por exemplo) e já sabiam do furacão musical que se aproximava. Praticamente com 87 anos, Elza apresenta-se num majestoso trono, no centro do palco. A mobilidade, no entanto, é uma falsa questão, uma vez que a carioca que já viveu ‘mil vidas’ (algumas bastante sofridas, leia-se a biografia…) enche o palco de voz e sentimento - e os excelentes músicos que a acompanham preenchem o resto.

“A Mulher do Fim do Mundo”, “Maria da Vila Matilde”, “Pra Fuder” ou “Malandro”, com muitas mensagens e alertas pertinentes como “cê vai-se arrepender de levantar a mão para mim”; “chega de sofrer calada, mulher tem de gritar, gemer só com prazer; reportem os abusos!” ou “mataram a Gilberta, uma transexual, é importante que outras Gilbertas não aconteçam” recebem ovação geral. Samplers, rock, funk, boas vibrações da música brasileira, uma voz poderosíssima de uma grande senhora e Rubi, contorcionista, senhor de uma voz quase tão fabulosa quanto a da diva em (Benedito &) “Benedita”. “Obrigada e parabéns Portugal”. E nisto canta o início dos parabéns e o público acompanha, em plena comunhão. Ouça-se a mensagem e o contributo interno e externo de mudança do mundo. Que cada um siga os melhores exemplos e faça o melhor que conseguir.

Sair do palco Super Bock para apanhar a recta final do concerto dos Wand no palco ponto. Uma bela gestão de pausas, com muita distorção, noise e som de garagem. Nisto atravessámos novamente para espreitar o palco Nos, habitado a esta hora pelos The Growlers. Ao fim de meia dúzia de canções optámos por ir jantar, tal era o ‘adormecimento’ imposto pelos californianos.

A exploração de novos sons - e as belas transições entre temas - executada com perícia por uns Evols coesos e competentes. Três guitarras, voz, bateria e baixos bem vincados, poderosos. A música portuguesa mais uma vez com belas referências e a dar cartas no palco principal do Nos Primavera Sound. Pena a audiência não ser um nada superior.

O mesmo poderia ser escrito sobre a catalã-irlandesa Núria Graham, autora do belíssimo “Bird Eyes” (2015), dona de uma voz encantadora. À mesma hora dos Evols, no palco ponto, atuaram os magníficos malianos Songhoy Blues que viramos há dois anos no Castelo de Sines, cortesia do Festival Músicas do Mundo.

Em conferência de imprensa a organização avançou 7, 8 e 9 de junho como as datas de 2018. A Nos considerou o Primavera o festival “mais bonito do mundo”, José Barreiro, diretor do Nos Primavera Sound, referiu, novamente, a venda integral de bilhetes na sexta-feira, dia de Bon Iver (Justin Vernon terá dito que o Primavera é o festival mais “fofinho que existe”), a tentativa de tornar o evento mais confortável, nomeadamente em termos de casas de banho, e a Câmara do Porto procurará tornar o “maior parque urbano da Europa” de melhores condições ecológicas em 2018. Encontramo-nos por lá para o confirmar daqui a, sensivelmente, um ano.

Texto: Filipe Pedro

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