Aerosmith - Meo Arena - 26 Junho 2017

“Aero-Vederci Baby!” proporciona uma histórica lição de rock

Ao som de “O Fortuna” (excerto mais conhecido de “Carmina Burana”, obra-prima que o compositor Carl Orff ofereceu ao mundo em 1937), ainda antes da entrada em palco, observámos os momentos principais de quase 50 anos de carreira numa narrativa multimédia dos Aerosmith, isto após clássicos blues e rock serem escutados ainda de luzes acesas. Ei-los finalmente em palco, uma Meo Arena praticamente esgotada, a terceira vez em Portugal, depois de terem atuado na Praça de Touros de Cascais (1994) e no T99, no Estádio Nacional (1999), para a digressão Aero-Vederci Baby!, que dizem por um ponto final na carreira.

Com batom a desenhar um beijo feminino na cara, o vocalista Steven Tyler, de cabelo solto ao vento - uma ventoinha no extremo da língua de palco proporciona-o -, dança, rodopia com o microfone e salta como se tivesse novamente nos vintes. A restante banda - Tom Hamilton (baixo), Joey Kramer (bateria), Joe Perry (guitarra), Brad Whitford (guitarra) e Buck Johnson (teclados; músico contratado para a digressão) - acompanha-o na conquista de uma Meo Arena nem sempre fácil, dadas as questões acústicas (o que não seria de todo o caso na presente noite).

 “Let the Music Do the Talking” (com um excerto de "Draw The Line", do álbum homónimo de 1977), de "Done With Mirrors" (1985), "Nine Lives", do álbum homónimo (1997) e “Rag Doll”, de "Permanent Vacation" (1987) - com uma bela slide guitar - preparam o público para a magia de “Livin' on the Edge”, de "Get a Grip", (1993) - uma assombrosa versão, com pós-edição de fogo e uma derivação a la Doors, pelas árvores de um deserto americano.

Neste momento o público fora conquistado, pelo arranque em absoluto “melhor de”, cantava em uníssono e aplaudia com força enquanto a banda, estendia a música. Raras vezes a Meo Arena apresentou um som bem definido e poderoso, num convite a uma futura edição em dvd, bluray ou, pelo menos, a uma transmissão televisiva.

A cumplicidade de Tyler e Perry, comparável com a de Jagger e Richards (Rolling Stones) ou de Bruce Springsteen e Steven Van Zandt, está bem patente num tema como “Love in an Elevator”, de "Pump" (1989).

Em “Falling in Love (Is Hard on the Knees)”, de “Nine Lives” (1997), Joe Perry tem espaço para brilhar, rockar, solar e cantar, enquanto Steven Tyler exibe domínio na harmónica, um autêntico patrão do blues. Propõe-se uma viagem pelas raízes do rock, por vezes perto dos Guns N’ Roses - que vimos há semanas em Algés - ou mesmo dos Bon Jovi, mas também com uma execução brilhante dos temas “Stop Messin' Around” e “Oh Well”, dos fundamentais Fleetwood Mac.

Tyler ‘toca’ búzio e uma espécie de cabaça-maraca. Mais uma vez puxa por Perry. E o público não se faz rogado na aclamação do guitarrista. O vocalista regressa à harmónica num ambiente de pequeno clube para, desta feita sentados, por vezes em dueto com Perry, nos proporcionarem “Hangman Jury”, de "Permanent Vacation" (1987).

O ecrã - único e de assinaláveis dimensões - está agora a preto e branco, realçando o contraste com um belo arranjo de luzes. A bateria de Joey Kramer... seguríssima em “Seasons of Wither”, de "Get Your Wings" (1974).

O baixo de Tom Hamilton, devidamente apresentado por Tyler, como no jazz ou nas big bands, faz-se ecoar poderosamente no pavilhão, numa espécie de intro para “Sweet Emotion”, de "Toys in the Attic" (1975), um dos mais reconhecíveis da fase “sexo, drogas e rock n’ roll” dos ‘mauzões’ de Boston.

Com um conjunto de pedais verdadeiramente invejável, Perry brinca como gente grande, diverte-se e até a realização o coloca em espelho. ‘Respect’. Após um compasso de espera pedido por Tyler para reparar os auscultadores-monitores (o vocalista não usa monitores de palco, recebe o som diretamente nos auscultadores), improvisação dos músicos, por caminhos do blues, até chegarmos aos recantos obscuros de “Boogie Man”, mais um tema de "Get a Grip" (1993).

“Alguém tem um chapéu?” pede Tyler, que em seguida o recebe e usa durante “I Don't Want to Miss a Thing”, banda sonora do filme-catástrofe "Armageddon" (1998), entoada como se fosse a balada mais perfeita da história. Da mesma banda sonora tocam a excelente-versão-homenagem “Come Together”, um original dos Beatles, novamente em modo dueto Tyler/Perry, com um curioso episódio com um lenço dourado/leopardo que, graças à poderosa ventoinha, não se deixava arrumar.

Segue-se “Eat the Rich”, de "Get a Grip" (1993), tal como no álbum, a terminar com um “stop that shit”… e um arroto. A risada é geral. “Cryin'”, do mesmo disco, claramente o vencedor da noite, como noutros casos entoada por todos, proporcionou uma viagem à MTV dos bons velhos tempos (circa 1994), quando o airplay dos Aerosmith era constante. E isso talvez explique o caldeirão testemunhável de gerações - dos 20 aos 60 anos. Avós, filhos, netos. Transversal.

“Dude (Looks Like a Lady)”, de "Permanent Vacation" (1987), em que toda a banda canta, mais uma vez no limite da língua de palco, com Perry a aproveitar a ventoinha para se refrescar, de camisa aberta exibindo múltiplos fios, quase troféus, também eles a simbolizar a passagem do tempo.

Antes do encore, um piano é instalado em palco enquanto se entoam cânticos de futebol. Ganhamos consciência de que o final se aproxima, depois de quase duas horas de concerto. “São lindos, disse bem?” Yeah, responde o público à pergunta de Tyler. “Dream On”, tocado no citado piano de cauda branco por Perry, com Tyler e depois Perry em cima do tampo, a darem tudo, à vez. Um belíssimo momento. Seguido pela homenagem ao Mr. Soul, James Brown, “Mother Popcorn”, impecável, enquanto o piano saia de cena. Que vozeirão, Mr Tyler.

O final, com apresentação da banda, muitas palmas e danças endiabradas, fez-se ao som do clássico “Walk This Way”, de "Toys in the Attic" (1975), ainda que mais próxima da versão antológica a meias com os Run-D.M.C., algures entre o rock e o hip hop. Ficaríamos totalmente saciados se pudéssemos ter escutado “Janie's Got a Gun”, de "Pump" (1989), “Amazing” e “Crazy”', ambas de "Get a Grip” (1993), mas sinceramente temos poucas razões de queixa, uma vez que tivemos direito a um dos melhores e mais completos alinhamentos de uma digressão que deixará certamente saudades (edite-se esse registo fonográfico e videográfico para combater esta tendência dos diretos absurdos para o facebook com o telemóvel ao alto, constantes filmagens e fotografias com telemóveis, além do fenómeno palerma e perturbador das ‘selfies’...).

Convidados dos Aerosmith, os britânicos RavenEye apresentaram o álbum “Nova” (2016) perante uma Meo Arena ainda a meio gás. À hora marcada para o início do concerto (20:30), já o power trio de Oli Brown (voz e guitarra), Aaron Spiers (voz, baixo e guitarra) e Adam Breeze (bateria) terminava o segundo tema do alinhamento. Muse, Soundgarden - como referência - e algum hard fm no meio de humor britânico refinado - “tocaremos alguns temas do nosso disco de estreia, mas também não interessa nada dizer isto; vocês não nos conhecem, é a nossa estreia em Lisboa” -, foram o prato servido, quase sempre a rasgar, e em frequentes deslocações, esquerda, direita e na língua de palco, agarrando o público desde os primeiros minutos. “Come With Me”, “Hate” e o celebrado “Hey Hey Yeah”, foram alguns temas tocados.

Com garra de vencer, os RavenEye são bastante melhores ao vivo do que em disco. Freddie Mercury sentir-se-ia lisonjeado com a referência e Ozzy Osbourne apreciaria a capacidade de ‘rockarem’, com respeito, às cavalitas uns dos outros. Uma conquista total, com a força de vontade (e canções de estádio) dos que querem ser grandes. Uma imagem? Um vocalista, com boa voz, que toca guitarra usando apenas uma mão - a outra segura o micro; o baterista vem até ao público; o vocalista canta em cima da bateria, utilizando um dos micros da mesma. Aguardemos a próxima visita, uma vez que estes ‘miúdos’ que se confessam fãs dos Aerosmith poderão voar bem alto.

 

Alinhamento do concerto dos Aerosmith

- Let the Music Do the Talking (com excertos de "Draw The Line")

- Nine Lives

- Rag Doll

- Livin' on the Edge

- Love in an Elevator

- Falling in Love (Is Hard on the Knees)

- Stop Messin' Around (versão de um original dos Fleetwood Mac)

- Oh Well (versão de um original dos Fleetwood Mac)

- Hangman Jury

- Seasons of Wither

- Sweet Emotion

- Boogie Man

- I Don't Want to Miss a Thing

- Come Together (versão de um original dos Beatles)

- Eat the Rich

- Cryin'

- Dude (Looks Like a Lady)

 

Encore:

- Dream On

- Mother Popcorn (versão de um original de James Brown)

- Walk This Way

Texto: Filipe Pedro
Fotografia: Alexandre Antunes/Everything is New

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